sábado, 21 de junho de 2008

E tu nunca faltas, Mónica!


Neusa

Neusa é o nome de uma adolescente que viveu uma história muito bonita, na qual me vou inspirar, agora, para escrever meia dúzia de linhas.
Como estou no intervalo grande, só tenho tempo para escrever uma pequena parte. Quem sabe, talvez um dia eu escreva a História Completa de Neusa. Eu adorava!
Mas por agora contento-me com um pequeno resumo que começa assim:

Era uma vez uma rapariga chamada Neusa que tinha 12 anos. Era alta, os cabelos eram pretos e os olhos eram muito castanhos e brilhantes.
Neusa era uma criança feliz, simpática, inteligente, cheia de alegria e de vida. Vivia com os pais e com os irmãos: quatro raparigas e quatro rapazes, numa casa, muito acolhedora, feita pelo seu próprio pai.
A casa ficava numa pequena vila, com poucos habitantes, chamada Bandi, não muito longe da cidade. As suas casas eram pequenas e à volta havia árvores, hortas e animais.

Em casa de Neusa criavam-se vários animais, desde cães, galinhas, patos, papagaios, porcos e outros animais domésticos. Nos dias de festas, para comemorar algum acontecimento importante, matavam-se alguns animais para preparar o banquete. Os povos daquela terra eram todos muito comunicativos e estavam quase sempre em festa.
Mas um dia, na véspera de se festejar já não me recordo o quê, aconteceu uma coisa muito grave de que ninguém estava à espera. Nesse dia Neusa adoeceu.
Na verdade, ela já estava doente havia muito tempo, só que não se queixava e ninguém se tinha apercebido do seu estado interior porque ela tinha sempre um sorriso no rosto e nos olhos. Porém, apesar de sorrir, Neusa era uma menina muito fechada, falava pouco e não contava a ninguém que tinha tonturas e outros sintomas esquisitos. Nesse dia, na escola, enquanto brincava com as amigas, desmaiou e foi levada para o Hospital. Quando, horas depois acordou, a mãe estava à cabeceira da cama e muito confusa perguntou-lhe:
- O que se passa, mãe? Estou aqui porquê?
- Desmaiaste na Escola, filha, enquanto brincavas com as tuas amigas, se calhar foi o calor… vou agora falar com o médico… descansa que eu venho já.
Neusa abanou a cabeça como sinal de compreensão, enquanto a mãe saía da sala para ir falar com o médico.
O médico, que estava no gabinete, deve ter achado parecenças entre aquela senhora e a menina porque imediatamente lhe perguntou:
- A senhora é a mãe da Neusa, não é?
- Sou sim, sou a mãe da Neusa… Sr. Doutor.
- Sabe, a sua filha não está muito bem!...
- O que se passa Sr. Doutor? Diga-me tudo! Implorou.
- Ainda não temos os resultados de todos os exames, mas parece haver um problema com alguma gravidade.

- A senhora reparou se, nos últimos tempos, a menina teve comportamentos estranhos?
- Confesso que não reparei em nada, S. Doutor. Neusa é uma menina muito calada, não gosta de se abrir com as pessoas, apesar de ser muito sorridente. Mas, por favor, diga-me, o que se passa com a minha filha?
Após momentos de alguns rodeios, o médico começou a falar sobre a doença de Neusa, tentando tranquilizá-la. Explicou que Neusa tinha uma infecção respiratória, já instalada, que lhe afectava o coração. Por isso a menina teria que ficar hospitalizada para fazer mais exames. Todavia, o mais delicado era que aquela doença não tinha tratamento em África e Neusa teria que viajar para Portugal.

Naquele momento havia já muitas crianças em lista de espera para irem em busca de cura no estrangeiro e o médico não podia ser muito optimista. Às vezes a espera era tanta que muitas das crianças morriam antes de serem chamadas.
O médico explicou à mãe de Neusa que ali no Hospital iriam fazendo algum tratamento mas que, como era conhecido, não havia muitas condições por falta de equipamentos e só se poderia contar com a boa vontade.
Neusa foi informada da sua doença, mas não lhe contaram toda a verdade para ela não se assustar. Foi-lhe dito que durante algum tempo não iria à Escola, que tinha que ficar internada, que tinha que ter alguns cuidados e que talvez fosse preciso viajar de avião para um país estrangeiro onde ela se pudesse

curar. E foi assim que para Neusa começou um novo desafio na sua vida. Para ela foi muito difícil ter de interromper a Escola e, sobretudo, não poder sair à rua para brincar com as outras crianças, ir à praia…
Neusa ficou tão triste que só de olhar para ela se partia o coração. Toda a família sentia a mesma tristeza.
Neusa falava pouco com os outros, mas dentro dela uma vozinha lhe dizia que ela tinha que ser forte para enfrentar a doença. E lá ia dizendo àquela vozinha que iria ser uma menina muito forte e que iria ultrapassar tudo. A família sofreu muitas alterações no seu ritmo de vida mas também não perdeu a esperança de um dia o milagre acontecer.
A sua mãe teve que deixar o trabalho para ficar no Hospital, ia a casa mudar de roupa e voltava logo. E foi assim durante um tempo que, para todos, pareceu infinito. Os tratamentos seguiam-se uns aos outros e Neusa mostrou-se sempre muito compreensiva e corajosa. O que a deixava ainda mais triste era ver as outras crianças que estavam na mesma enfermaria, com a mesma doença, a ficarem cada vez piores. Neusa sofria também por elas.

Neusa fez amizade com uma menina da sua idade. As camas estavam mesmo ao lado uma da outra e elas conversavam muito. Ora, um dia aconteceu uma coisa horrível: a sua amiga faleceu enquanto esperava a viagem.

Neusa ficou tão desanimada que durante muitos dias não falou e, com a cabeça escondida debaixo do lençol, chorava,

em silêncio. Entretanto a avó da sua amiguinha continuou a ir ao Hospital, mas desta vez ia só ver Neusa e dar-lhe força.
Neusa olhava, com tristeza, para aquela avó que amava tanto a neta e, a chorar, perguntava-lhe por que é que a menina tinha morrido se ela era ainda uma criança e tinha tanta esperança na vida. Não era justo!
Uns dias depois, veio outra menina, com a mesma doença, ocupar a cama vazia e Neusa conseguiu esquecer um pouco a sua tristeza. Ficou contente por encontrar uma nova amiga mas, por outro lado, continuou pensativa porque esta segunda menina também estava em risco de vida.
À medida que o tempo passava e se esperava lugar no avião, as meninas iam falando uma com a outra.
Foram-se conhecendo e assim nasceu nova amizade. Infelizmente também esta amizade durou pouco… também esta menina acabou por falecer por não aguentar a gravidade da doença e a espera do avião.
Neusa, é claro, mergulhou numa enorme interrogação e pensava: “as meninas morrem e eu não morro porquê?”. Este pensamento era mesmo o de uma criança que já tinha entendimento de gente muito mais crescida.
A vida de Neusa aguentou-se um ano e alguns meses no Hospital, o que já era considerado um milagre.
Depois o médico disse à sua mãe que ali já não havia nada a fazer e que ela teria que viajar para Portugal, o mais rápido possível porque iria piorar.

A mãe de Neusa não sabia como fazer para arranjar tudo rápido porque ainda tinha que tratar dos documentos necessários e, sobretudo, não tinha o dinheiro suficiente. Havia os outros filhos para sustentar. Como é que ela iria fazer para ajudar Neusa a ir curar-se?
Então, como não podia contar com o marido porque ele também estava doente, nos dias em que esperou pelos documentos, trabalhou ainda mais, vendeu coisas que tinha e, com a ajuda de alguns amigos, conseguiu mais algum dinheiro, mas ainda não tinha o suficiente.

A saúde de Neusa piorava cada vez mais e os médicos já não sabiam como conformar a família. Até que um dia uma amiga da mãe lhe indicou um padre que costumava ajudar as pessoas e que já tinha feito o milagre de curar algumas crianças.
Correndo, a mãe de Neusa foi buscá-la ao Hospital e levou-a ao padre. Quando chegaram a casa do padre Victor nem foi preciso explicar a situação da menina porque ele conseguiu logo ver o que se passava e disse que não era com ele. Só um médico a poderia ajudar. A situação de Neusa era tão urgente que o padre imediatamente tratou dos documentos e de tudo o que era preciso e logo no dia seguinte conseguiu arranjar uma passagem para Lisboa.
Toda a família ficou contente e muito agradecida. Neusa, por momentos, também ficou feliz, mas depois começou a pensar

que o padre também deveria ajudar as suas amigas antes de elas morrerem, além disso ela não queria

deixar Zuleida no Hospital, a terceira menina que tinha acabado de ser internada.
Como nenhum elemento da família podia acompanhar Neusa, por haver problemas de dinheiro e de documentos, foi mesmo o padre Vítor e uma freira que fizeram as vezes da família, acompanhando-a a Lisboa.

Finalmente chegaram a Lisboa.
Quando Neusa desceu do avião ficou muito admirada com o brilho de tantas luzes num só sítio. Achou tudo lindo e brilhante. Por uns minutos até esqueceu a doença. De imediato foi transportada numa ambulância para o Hospital onde chegou mesmo na hora. Segundo os médicos, Neusa já estava no fim e não se podia garantir que a operação ao coração corresse bem. Graças a Deus a operação foi um êxito.

Ao acordar, Neusa foi muito acarinhada pelos médicos e nem queria acreditar que a sua doença já estivesse resolvida. Então o médico telefonou à família que esperava, ansiosa por uma resposta, no seu país e foi um momento muito mágico para todos, sobretudo quando Neusa ouviu a voz da mãe.

A recuperação correu muito bem, mas era preciso sair do Hospital e começou outra aventura para Neusa: onde ficar?

Havia familiares em Portugal, mas eles não tinham condições para cuidarem dela.
Foi depois uma família adoptiva que tomou conta dela durante o tempo necessário até se conseguir outra solução.

No seio dessa família, Neusa conheceu uma senhora que se chamava Ilda.
Fizeram amizade e juntas iam passear, iam à missa e era muito agradável. Mas, de novo, a vida de Neusa sofreu alterações, a família adoptiva teve que mudar e ela foi para Torres Vedras, para um local de refugiados.

Lá, voltou a fazer amizades. Diga-se que, onde quer que Neusa chegasse havia sempre alguém que a ajudava a superar as dificuldades.
Neusa nunca esqueceu, nem esquecerá, todas as pessoas que estiveram com ela desde o início da sua doença.

Entretanto, Neusa cresceu e continuou a ter cuidados especiais com o seu coração, mas fazendo sempre a sua vida normal, conforme o médico a aconselhava. Depois começou a estudar porque o seu grande sonho era ser médica para voltar ao seu país e poder ajudar todas as crianças doentes.

Neste momento penso que Neusa já estará na Faculdade de Medicina. Também soube que a sua irmã mais velha tinha vindo para Portugal e que viviam juntas, que já tinham uma casa e que....

Pronto! Já não posso falar mais de Neusa! Já passou o intervalo grande e a campainha já está a tocar!

Trimmmmmm!

Agora tenho que correr até ao Pavilhão P3! Vou ter Português e não quero chegar atrasada!
Quero ganhar um Diploma de Pontualidade porque o de Assiduidade já está assegurado. Nunca falto!
Este texto é da autoria de Mónica Pereira*, falecida a 17 de Junho de 2008
*Aluna do 9º ano, turma A do Curso de Educação e Formação de Assistente Administrativo – Tipo 2

1 comentário:

João disse...

Olá Mónica

Onde quer que estejas um grande beijo.

O teu texto mais parece um poema.

João Belo
prof. de C.S.eF.Civica em 2004/2005

No Dia Internacional da Mulher lembramos - Grandes Mulheres


A BELA OTERO Carolina Otero Iglesias(1868-1965)

A Bela Otero, de seu nome Carolina Otero Iglesias, foi uma bailarina espanhola, lindíssima, também conhecida como a "sereia do suicídio". A sua vida fez correr rios de tinta e de sangue. Foi amada por seis reis: Afonso XIII, Leopoldo II da Bélgica, Nicolau II da Rússia, o futuro rei Eduardo VIII (duque de Windsor), Alberto I do Mónaco e Guilherme II da Alemanha, bem como pelo multimilionário Kennedy, pai do presidente dos EUA assassinado. O banqueiro Vanderbilt pediu-lhe: "Arruina-me, mas não me abandones". Esta espanhola, nascida pobre perto de Pontevedra, em 1868, seria considerada a mais famosa bailarina europeia, do início do séc. XX. Paris vivia a belle époque. A Bela Otero percorreu o mundo inteiro. Os jornais davam constantes notícias dos seus amores. Tinha o vício do jogo e perdeu fortunas no casino de Monte Carlo. Saturada da vida mundana, em 1944, retirou-se para proteger os mais necessitados de Niza (Espanha). Fez testamento a favor dos pobres, embora conste que morreu na penúria. Deixou um diário com o título Memórias.