quinta-feira, 12 de junho de 2008

O PREÇO DAS PALAVRAS

Se cada adjectivo fosse tão caro como uma gota de perfume francês, se cada verbo custasse o preço de uma viagem às Maldivas, se cada advérbio fosse um metal precioso, se cada nome fosse um telemóvel de última geração, se cada conjunção fosse um carro topo de gama, as palavras teriam para todos nós outro valor. Actualmente, deixamo-las fechadas em dicionários, prisioneiras das livrarias; ignoramo-las, desprezamo-las, fingimos não as ver, quando entramos no centro comercial mais próximo, não vão elas perturbar-nos a peregrinação ao santuário do consumo. São gratuitas, mesmo as mais caras, mas, mesmo assim, não têm sorte nenhuma. Nem todos percebem que, quanto mais as usarmos, mais valiosas se tornam e mais valiosos nos tornam. Um destes dias, encontrei um filão de ouro numa velha disquete: os textos que ganharam os primeiros prémios do concurso literário da nossa escola em 1998/99. Dez anos depois, saúdo os seus autores, porque souberam pesar cada palavra e encaixá-la no seu devido lugar.
Filomena Ponte Silva

Rósea misantropia

Nada, o vazio, nada dizer:
Ficar para aqui a observar
Os outros de longe a falar
E sem ter olhos para os compreender

Mãos tentam em vão colher
corpo que já não sabe beijar,
Nem mesmo um abraço dar
A solidão que viu crescer.

Alma que esqueceu o amor
E só conhece o fragor
Dum isolado sentimento;

Semelhante à rosa abandonada,
Na tristeza deixada
Como um longínquo fragmento.

Tânia Almeida -15 anos
1ºPrémio de Poesia (E.Básico-9°2a em 1998/99)

A dor antes da morte

Deixa-me libertar desta dor que me domina,
que só me faz mal e que nada me ensina
que me tira a esperança,
que me tira tudo
um pensar que só cansa,
que domina o meu mundo.
Deixa-me para sempre e não voltes mais,
deixa-me viver para não sofrer mais,
Não me tragas sofrimento
traz-me apenas sorte,
mas não me sai do pensamento q
ue essa dor é a morte.
Mónica Dias-15 anos
2°Prémio (E.Básico 8° 3a em 1998/99)


PESSOAS

Um homem num canto refugiado à procura do entendimento das estrelas, e o sujo prato à espera em cima da mesa, que o puro se transforme em real.
...não meramente um sonho...
Esse Pessoa que chora num canto
à procura da resposta,
cai em sonho de saber quem é,
pois na realidade não se compara a um espelho.
Escreve como um louco, à espera que algo, ou alguém o domine, para que a poesia deixe de ser mera canção e passe a ser transcendência.
Então;
louco, dominado pelo seu ego animalesco,
grita com as refundias vozes do coração:
"Quem sou eu?!"
E nesse mesmo instante,
saltam à vista de seus olhos/
três espelhos,
fechados no seu pequeno quarto escuro,
sem já a janelinha que dava uns olhares ao mundo.
Então Pessoa olhou para um deles e exclamou cheio de ignorância:
"Mas não é a minha imagem, a reflectida no espelho!!"
- Enganas-te, (responde-lhe a imagem do espelho)
- Eu sou mais de ti, do que possas imaginar.
- Eu resultei do teu próprio caos
e a chuva oblíqua que antes pairava sobre ti
agora não molha mais,
pois tu não és um, nem muitos,
és o Universo.
E nesse mesmo momento, o poeta Pessoa nasce, acompanhado de seus reflexos; agora reais: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
E apercebe-se que afinal sempre os conhecia,
pois sempre tinham sido ele.
E as rochas múltiplas que antes derrubavam
um homem doente'
agora formavam um muro de verdades,
ao qual ninguém iria deitar abaixo,
ou simplesmente opor-se...
E o poeta subia... ...subia...
E seus olhos já não mais condicionavam
o pensamento,
pois podia visualizar os quatro horizontes.
abrindo portas à consciência
e o mundo deixava florescer uma flor sua,
de verdadeiro perfume de sabedoria.
Tudo é conhecimento. Tudo é certeza.
O diletantismo paralelistico que se sorria na actualidade foi posto em causa, aquando da chegada da verdade.
E a anacronia jamais iria reinar nas bocas infames de pessoas que não viam o sentido real do som...
- Olhos de cristal soam em mim,como uma ressonância do pesar,que tenho algo a transmitir.Sabendo que nada sei,
agora salto da minha noção de sabedoria e fujo à realidade, apenas para sarar, uma dor fingida...
- Continuam a vir atrás de mim ,aqueles que antes procuravam o saber.Esse tal, que por transfiguração,
(ou erro de som)
chegava a ser confundido com carneirice.
- Agora que os carvalhos morrem de velhicee os céus deixaram de ser o limite
de uma vida sem retorno,
eu sei que existo,
pois sou mais do que o que a vista alcança.
Até que o cosmos falhou simplesmente mais uma vez, o tempo escureceu a voz do poeta que habitava em Pessoa.
E Pessoa morreu, mas não levando consigo a sua voz, ficou nos espíritos de cada un de nós...
E foi assim que de um Pessoa morto* liascem agora quatro "Poetas do Mundo".
"Tempo"
Onde estão as horas de promessa de ontem?
Serão,
máscaras de promessa das horas de amanhã?
Rumo a horizontes longe.
A nevoeiros imprecisos, o tempo é singular.
Foge quando o queremos longo e o momento que queríamos único, acontece até quase não ser. De tudo sobra a memória, o que somos.
Também o cacto floresce
enquanto a natureza repousa,
morre-se quando se nasce
e passam eternidades entre dois hálitos.
Tempos de sois cinzentos,
adivinhados temporais,
longe,
aonde a luz se esconde.
Vão-se luas, vão-se ideias, vai-se tempo e vai-se a vida - ingratos deuses.
Zumbe o vento,
fria a alma.
Pedro Eugénio-17 anos
1ºPrémio de Poesia(E.Secundário, 12° 2a em 1998/99)

DIZER ADEUS

A beleza cessou, um Amor acaba assim
Como o anoitecer sempre precede o dia,
Como o ardente Verão sempre se esfria,
Assim também o Amor chega a um fim.
Resta então algo após uma despedida?
Sim, talvez. Ah! Como posso eu saber
Se o triste adeus eu não consigo dizer!
Ele afastou de mim a coisa mais querida...
Nunca dizer adeus! Apenas até breve, Amor,
Não abro mão do nosso saudoso passado,
Lutarei até não ter forças, suportarei a dor.
Teu triste adeus no coração ficou marcado,
Mas da terna paixão não extinguiu o ardor
Nem aquele sabor que provámos do pecado.
Lídia Travassos-16 anos
2° Prémio de Poesia (E.Secundário, 11°10a em 1998/99)

Eternidade...

Deus da minha escuridão...
Sentimento que esfria minha alma celeste e divina...
Dor que invade meu espírito,
E se apodera da minha mente...
Que se eleva até um infinito obscuro,
Onde a solidão
Não é mais do que a grande senhora da minha desgraça...
Que vagueia perdida por entre irrealidades extremas...
Como um rio sem foz...
Como uma nascente sem destino...
Que de um Inferno que era meu,
Encenou a Fatalidade, num incesto da realidade...
E a chama,
Que alimenta esta verdade declarada,
Inflama cada lágrima que meu rosto percorre...
Desenhando cada contorno do meu sofrimento...
Da maldita dor que me consome em pensamentos,
Que no silêncio da noite me assombram...
Descreverei com sangue a apatia do meu ser,
Negando cada palavra escrita, oriunda do seio da minha alma...
Que mata esta maldita ânsia de te sentir mais perto de mim...
Contudo, a maldade penetrou na luz que ilumina meu espírito...
Fazendo-me mergulhar nas teias da tua escuridão...
Transformando-me num misticismo da noite,
Coberta pelo manto escuro das estrelas...
Protegida eternamente pela máscara da surrealidade...
Onde à luz de uma vela negra,
A flamejante paixão dos teus olhos...
É a mais doce visão para o meu espírito...
Onde eu sei que a escuridão reina...
...Sobre a divindade da tua supremacia...
Andreia Tatiana Perdigão- 17 anos
3°Prémio de Poesia (E.Secundário, 12° 1a em 1998/99)

1 comentário:

Billy disse...

Incrivel...já me tinha esquecido disto hehe obrigado ;)

Pedro Eugénio - "PESSOAS"

No Dia Internacional da Mulher lembramos - Grandes Mulheres


A BELA OTERO Carolina Otero Iglesias(1868-1965)

A Bela Otero, de seu nome Carolina Otero Iglesias, foi uma bailarina espanhola, lindíssima, também conhecida como a "sereia do suicídio". A sua vida fez correr rios de tinta e de sangue. Foi amada por seis reis: Afonso XIII, Leopoldo II da Bélgica, Nicolau II da Rússia, o futuro rei Eduardo VIII (duque de Windsor), Alberto I do Mónaco e Guilherme II da Alemanha, bem como pelo multimilionário Kennedy, pai do presidente dos EUA assassinado. O banqueiro Vanderbilt pediu-lhe: "Arruina-me, mas não me abandones". Esta espanhola, nascida pobre perto de Pontevedra, em 1868, seria considerada a mais famosa bailarina europeia, do início do séc. XX. Paris vivia a belle époque. A Bela Otero percorreu o mundo inteiro. Os jornais davam constantes notícias dos seus amores. Tinha o vício do jogo e perdeu fortunas no casino de Monte Carlo. Saturada da vida mundana, em 1944, retirou-se para proteger os mais necessitados de Niza (Espanha). Fez testamento a favor dos pobres, embora conste que morreu na penúria. Deixou um diário com o título Memórias.